segunda-feira, 23 de setembro de 2013

"Quando a cena maior parece terminada, há o que vem depois..."

Comecei esse ano em uma das praias mais bonitas que já conheci. Era, praticamente, só água e areia. Foi preciso andar alguns metros pela água para conseguir estar com o corpo todo dentro. Depois da longa caminhada para chegar, fiquei lá por algumas horas, num esticar do tempo. Leveza e calmaria no coração. Submersa: essa é uma das metáforas mais importantes da minha vida. Um dia escrevi e essa frase permanece viva no meu ser: "alguém não acostumada a viver na superfície". Percorrer os caminhos da vida com profundidade. Vivência. Alçar voo para dentro de nós mesmos ao tocar os outros. Um deslocamento de si para si que se constrói na relação com o outro e que se perpetua neste também. O tempo vai deslizando e a vida vai ganhando novos desenhos a cada passo e à isso soma-se, na minha, com a experiência da morte, o aprendizado sobre a importância de seguirmos sempre leves, atentos e com amor. Tocar as coisas e se aproximar do que é vida. Pulsante. Conhecer cada contorno do ser. Estar presente. É simples e forte. Essas urgências ganham um sentindo imenso no que nos propomos a fazer. Meu peito se preenche e esvazia a cada final de semana. Há tanto que passa por aqui. É muito sopro de vida. E tantos abismos... a gente os descontrói e reconstrói todos os dias. No meu peito tem amor e uma inquietude. Tudo que nos corrói, nos transforma. Tudo que nos toca em profundeza, modifica. Às vezes meu coração mora no horizonte. Às vezes em cada pedacinho de chão. Às vezes em um abraço. E muitas vezes encontra morada em um reflexo de luz. Do parapeito dessa janela para a vida eu observo. Hoje chove e a água é corrente propulsora. É segunda-feira e, por mais raro que possa me parecer, é leve. Respiro e no vento meu coração encontra abrigo.

A vida é.

Tatiana Plens

terça-feira, 22 de maio de 2012

Coletivo Cê promove festa “Cabiru” nesse sábado

Cabiru. Rio da Coruja. Nome tupi. Promover uma festa no Espaço Cê não é só promover o encontro de artistas, músicos, agitadores culturais, professores. É ver o ambiente transvertido em poesia. É encontrar o riso das crianças, é descobrir sentidos possíveis no cotidiano do bairro de ruas estreitas e casas coladas.

É ter sem esperar. É jogar cores nas paredes, converter mato em jardim, transformar gavetas em quadros, ecoar pelas ruas e receber, em troca, uma mesa esculpida por uma mão trabalhadora. É promover uma feira de teatro de rua e ser presenteado com um pacote de balas pelo dono do mercado da última rua. É receber gratidão.

É entender que a arte não é feita só de artistas. É viver de troca. É fazer do ambiente o nosso campo de reflexões e da poesia o pano de fundo para que as pessoas que acreditam no poder transformador da arte, criem laços afetivos.

É com esse intuito que o Coletivo Cê promove a sua segunda festa no Espaço Cê, agora dentro de um projeto chamado “Cabiru”, evento que acontecerá bimestralmente no Bairro da Chave como ponto de encontro de diferentes artes.

O primeiro Cabiru acontece nesse sábado, dia 26 de maio, das 18h às 23h, e contará com apresentação das bandas Fones, Os Pontas e Pivetes, exposição da fotógrafa sorocabana Juliana Saker, esquete teatral do ator votorantinense Hércules Soares e discotecagem do músico Henrique Ravelli.

Ainda entre os artistas convidados, está o grupo Colaboração em Dança com o espetáculo “À Sombra Daqui de Casa”, que propõe reflexões sobre o ato de se estar à sombra de alguém, quando nos colocamos em segundo plano pelo desejo do outro, que em sua maioria é um exercício que se inicia em casa; fala das linhas que se juntam ao longo da vida construindo os tecidos que nos abrigam do frio, fala das relações entre homens e mulheres, de nossos imaginários, de nossas alegrias e tristezas, do modo como escolhemos lidar com todas elas.

Esse encontro faz parte das ações que o Coletivo Cê tem plantado nos escombros da antiga associação de amigos do bairro da Chave, localizada na Rua Carlos Alberto Rodrigues, s/n, na cidade de Votorantim. A utilização desse espaço permitiu que o coletivo dobrasse suas ações artísticas, com a criação dos cursos gratuitos de "iniciação teatral", "jogos lúdicos" e "capoeira" destinadas a crianças e adolescentes de 6 a 17 anos do bairro, e a promoção de eventos culturais, com o objetivo de difundir e compartilhar a experiência e o modo de trabalho do coletivo.


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Uma casa de estrelas

Retomar a desterro foi desterrar um pouco mais. Foi deixar o que precisava ser deixado. Foi transmutar dor em saudade boa, foi polir os olhos pra ver beleza de novo no que é dito. A inquietação sempre esteve presente, nosso discurso passa pelos mesmos conflitos, novos conflitos começaram a fazer parte e assim é que se reanima um processo. A estrada bota sentido em todos nós. E é na estrada que entendemos a necessidade de dizer.
 A casa...
 A casa agora nos permite ver as estrelas, e acho que não podia ter sido melhor a escolha, queremos expandir e crescer pra além das paredes, do telhado, ganhamos o mundo, abraçamos as estrelas.
 A lua agora é nossa parceira e ajuda na iluminação de nossas cenas. Somos parte do cosmos.
 Nas pequenas rachaduras, nas paredes que sobram, não vemos tijolos, vemos conchinhas...parece que a poesia foi morar com a gente na nossa casa de estrela. Nas bordas das paredes enegrecidas pelo tempo crescem flores, as que racham concreto, aqui não só resistem, mas ocupam como rainhas, majestosas, a paisagem. Uma casa que está em perfeita conjunção conosco. Que loucura esses tesouros que a gente encontra.
 Alguém na rua perguntou: Mas não derrubaram isso ainda?
 Minha resposta é que não, e nem vão. Os tesouros perduram. No caso, ela ocupa e resiste. E mesmo que venha a desaparecer nesse tempo. Marcou qualquer cantinho da memória das pessoas que estiveram conosco. Marcou uma cidade cujo som é uma mistura de domingo, missa, e os pássaros (que cantam alto e ás vezes sobrepõem o som de marasmo que sai dos alto-falantes da igreja).
 Deus, se Ele está, com certeza prefere o canto das suas criaturas, ao chiado estridente de algumas palavras mortas.
 Deixamos um pedacinho de nós em mais um encontro: Com pessoas boas e gentis, com gente emocionada, com quem precisasse comunicar ou ouvir o que nós tínhamos a dizer. Levamos saudade de tudo, o desejo de voltar, maiores e melhores, religar.
 Levamos um beijo do mar.

  Por Fernanda Brito. Imagem de Paulo Henrique Zioli

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Você Decide o que fazer com seu imposto!



1. O que é um investidor cultural?

Investidor cultural é aquela pessoa que destina parte do seu imposto de renda para projetos culturais.

2. O que é a Lei Rouanet (lei federal de incentivo a cultura)?

A Lei Rouanet criou o PRONAC – Programa Nacional de Apoio a cultura, que tem como finalidade obter recursos para a área de cultura através de renuncia fiscal. Tanto empresas quanto pessoas físicas podem deduzir imposto através dessa lei. Nessa cartilha nós vamos tratar apenas das deduções realizadas por pessoas físicas. A Lei Rouanet é uma ótima oportunidade de definir como parte do dinheiro que você paga ao governo é utilizado.

3. Como me tornar um investidor cultural?

É muito fácil investir em cultura. Primeiro é preciso encontrar um projeto cultural que tenha sido aprovado na Lei Rouanet (lei federal de incentivo a cultura). Depois você decide quanto quer investir no projeto. Então é a hora de contatar o responsável pelo projeto e fazer o depósito na conta bancária do projeto. Lembre-se de pedir e guardar o recibo da doação. Quando você for fazer a declaração de IR basta lançar os dados do investimento cultural e você poderá abater uma parte ou a totalidade do valor investido.

4. Como saber quanto eu posso abater do IR?

Primeiro você precisa verificar em qual artigo o projeto que você escolheu está incluído. Projetos incluídos no artigo 18 permite 100% de abatimento e projetos incluídos no artigo 26 apenas 80%. Isso acontece porque o ministério da cultura privilegia o investimento em algumas áreas como literatura e artes cênicas. Outro coisa importante: você só pode abater até 6% do imposto devido. Qualquer valor acima desse teto não poderá ser abatido do IR. Entram também nesse teto doações feitas ao Fundo da criança e através da Lei de incentivo ao esporte. Veja abaixo como calcular esse valor, a seta vermelha indica quanto imposto você deve ao fisco. Use esse valor para calcular quanto você pode investir em cultura, ou seja até 6% desse valor. Na sua declaração de imposto de 2010 uma estimativa desse valor. Se você não tem os valores da sua declaração de 2010, faça uma simulação com a sua estimativa de rendimento de 2011.

Abra o programa de declaração da Receita Federal; vá em “cálculo de imposto” (em azul, com seta vermelha). Verifique o valor no campo “Imposto” (assinalado em vermelho). Você pode deduzir até 6% desse valor. No caso, até: R$ 950,52

É burocrático e complicado lançar o abatimento no IR?

Não, na verdade é bem simples. A primeira coisa que você deve fazer é fazer sua declaração de IR pelo modelo completo. Quem utiliza o modelo simplificado não pode deduzir investimentos em cultura. Após fazer sua doação você recebe o recibo de mecenato. Lembre-se de guardá-lo. Para facilitar a emissão do recibo forneça ao empreendedor cultural os seguintes dados: CPF, endereço, CEP e telefone.

Os dados que você deve guardar são os que estão marcados em vermelho: O número de PRONAC que identifica o projeto e o CPF/CNPJ do proponente do projeto. Com o recibo em mão você pode lançar a sua doação na declaração de imposto de 2011.


Como eu declaro o pagamento realizado ao projeto?

Vá no item “Pagamentos e Doações Efetuados” (seta vermelha); inclua um novo item; utilize o código 41 “Incentivo a cultura”. Coloque como nome o número de PRONAC do projeto e o CPF do proponente. Indique o valor doado e no campo “parcela não dedutível” deixe 0, pois projetos aprovados no artigo 18 permitem 100% de dedução.


Como eu vou receber o valor abatido do IR?

Você recebe o valor investido em cultura de volta na mesma data em que receber a restituição do seu IR ou for pagar o IR. A doação para projetos culturais é vantajosa tanto para quem tem imposto a pagar quanto para quem tem restituição a receber.


Vamos apoiar?

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Tesouros de terça-feira de manhã



Por Fernanda Brito

Vó Senhorinha é uma senhora forte de 87 anos que já passou por muita coisa na vida. Como toda vó já passou muita coisa na vida não há nada de surpreendente nesse fato. A vó já aguentou derrames, infartes, câncer, dores, perda dos dentes, do grande amor, de irmãos, do marido, a vó parece frágil mas é forte como um touro.
Ninguém marca nada com ela e deixa de cumprir. Não é coisa de velha, nem é por ser cricri, é que quando você marca com alguém tem que estar lá.
Dá pra ver a vó envelhecer, sem grandes doçuras de contos e textos bonitos. A gente envelhece, cria rugas, dores novas, vai ficando frágil e miúdo.
Minha vó, como toda vó, é um poço de inspiração. No meu caso, apaixonada pelos tempos idos, minha vó é quase uma epifania caminhante. Verter água é ouvir ela falar as coisas mais sinceras e singelas que sua educação campesina permite. Chamar a empregada de APICÓRNA e concluir que é por causa desse fato que ela faz tudo exatamente o contrário do que minha vó pede (APICÓRNA também é conhecida como CAPRICORNIANA), me chamar de solteirona porque:"Quem casou no mesmo dia da sua mãe já é avó!" e outras pequenas coisas que constituem essa senhora que eu respeito e amo demais é um privilégio. Estão aí os tesouros. Encontrar a singeleza de uma conversa sobre o tempo com ela. Me sentir de alma afagada de vê-la no trato com suas coisas. Observar o juntamento de cacarecos que é sua casa e admirá-la por manter esse hibridismo de tempos dentro daquelas paredes, forradas de imagens de santo e de um apego no Deus. A grandeza não está no conhecimento nem nos livros. Está no meu pequeno tesouro de terça-feira de manhã. No tesouro dessa visita. Vertendo água durante uma conversa por ver materializada minha ancestralidade e toda a beleza da minha crença na memória. No tesouro de reconhecer nossa efemeridade. Todo mundo devia vezenquando encontrar sua vó, fofa, ou uma vó fofa mesmo que emprestada e entender que a gente é pequeno, efêmero, frágil, quase nada. Essa mulher forte, mãe, toda sangue e coração (mesmo sem se reconhecer sangue e coração) é uma arca de tesouros e de sabedoria.

"E a gente vai até onde Deus permitir né fia? Só por ele que a gente segue!"

(As rosas são da roseira dela naquele quintal que eu brinquei tanto quando grãozinha)