domingo, 23 de janeiro de 2011
Projeto Luz Às Memórias
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Desterro em São Roque- SP

O Coletivo Cê inicia no próximo dia quatro de fevereiro a nova temporada do espetáculo Desterro. A peça teatral que já esteve em cartaz de fevereiro a abril de 2010 em Sorocaba, por meio da LINC (Lei de Incentivo à Cultura), foi contemplada no final do ano passado pelo Programa de Ação Cultural (PROAC) do Governo do Estado de São Paulo. Com o PROAC, o Coletivo Cê percorrerá três cidades do interior paulista para apresentar o espetáculo e realizar oficinas culturais, começando pela cidade de São Roque.
O projeto Desterro - Investigação e Preservação da Memória é parte da pesquisa de linguagem e experimentação cênica do Coletivo Cê e foi selecionado pela LINC de Sorocaba para desenvolver um processo de criação que tem como principal ponto de partida a investigação e o resgate da memória.
O “Processo de Desterro” teve início em agosto de 2009 e se deu a partir da investigação e compartilhamento das histórias pessoais e recordações dos cinco atores/criadores integrantes do projeto. A memória é aquela onde estão nossas origens, as histórias dos avós, as imagens de outro tempo, as músicas e brincadeiras da infância; os sabores, cheiros e sensações do imaginário do passado de cada um de nós, das experiências que carregamos ao longo da vida. Buscando abarcar as criações a partir da idéia de que somos feitos das memórias que carregamos.
O projeto prevê ainda dar novos significados para espaços de patrimônio histórico. A escolha do Sítio Santo Antônio em São Roque como novo espaço de apresentação dá luz a essa ideia por representar um local não somente com uma grande riqueza histórica e arquitetônica, mas também com um precioso valor artístico. O imóvel pertencia ao escritor modernista Mário de Andrade, que doou o sítio ao Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1947, com uma exigência: ser o zelador desse patrimônio enquanto estivesse vivo. Sua intenção era tornar a Casa Grande um local de repouso para os artistas brasileiros.
O espetáculo Desterro narra a trajetória poética de um jovem que está saindo de casa e através de um mergulho em imagens, sensações, músicas e fatos da sua vida - passado, presente e futuro que se fundem, como num mosaico de devaneios – parte para um reconhecimento de si mesmo, do seu lugar de origem, das suas urgências. Um passeio pelo tempo através da memória, em que o espaço, o texto, os atores e os espectadores co-criam a história que pode também ser a de todos nós.
As apresentações ocorrem nos dias 04, 05 e 06 de fevereiro às 18h no Sítio Santo Antônio, Estrada Mario de Andrade Km 8, Planalto Verde, São Roque/SP. Para adquirir o ingresso basta fazer a doação de um litro de leite na Divisão da Cultura do CEC Brasital antecipadamente. A inscrição e a data das oficinas culturais ainda será definida. Mais informações pelo telefone (11) 4784-3076.
Ficha Técnica:
Direção: Júlio Mello
Dramaturgia: Janaína Silva
Preparação Corporal: Melany Kern
Contra-Regra: Lucas Maia
Fotografia: Tatiana Plens
Elenco: Hércules Soares
Eliane Ribeiro
Mariana Alves
Giuliana Bona
Fernanda Brito
Andressa Machado
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
O menino que carregava água na peneira.

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.
Manoel de Barros
*Foto Fabricio Vianna- @fabriciovianna
sábado, 31 de julho de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
A MEIO-CAMINHO
Partir e chegar, chegar e partir... Estar em algum lugar, e ao mesmo tempo viver o não-lugar. A partida traz no seu deslocamento as minúcias de uma vida, a nostalgia da despedida e a saudade dos momentos que fizeram valer a pena cada minuto do passado. E isso não é privilégio de ninguém, tampouco castigo para os desafortunados. Trata-se da mais comum e fatal aventura do homem: o exílio para o desconhecido. Inserido nessa dinâmica intransponível, ele conta com a memória, forte aliada contra a solidão e o desamparo.
Percorrendo esse universo, fatual e onírico, o espetáculo Desterro, do Coletivo Cê, apresenta a história e a lembrança de um jovem, cuja angústia pela vida perdida faz com que rememore, entre os anos decorridos do seu caminhar, os episódios mais importantes, causa de inspiração e pesar, e os embates de maior repercussão interior. O grupo sorocabano exibe no Casarão da CPFL (espaço da encenação) o suceder de vínculos e interrogações de um sujeito a procura de si próprio nas coisas, pessoas e afetos que participaram das etapas de sua vida.
Concebido como espetáculo itinerante, o público – não mais de vinte e cinco pessoas – é conduzido por alguns cômodos e pelo pátio, donde aprecia as cenas que formam o quebra-cabeça do consciente do protagonista, o jovem nômade. O elenco, bastante comprometido com o seu trabalho, alterna personagens e compõe também o coro musical que entremeia os blocos de representação. Em cena, o jovem se confronta com a alegoria do tempo, personificada como a memória que o introduz e retira ininterruptamente pelas entranhas da sua psique atormentada, sentida igualmente nos detalhes cenográficos e atmosféricos, propostos por uma iluminação parva e desfocada. Os objetos escolhidos, com características rústicas e bucólicas, traduzem com sucesso o anseio do protagonista de retornar ao local de segurança.
No fundo de tudo, a travessia pelas estações resididas (o café com a mãe, a colheita de mangas, a visita ao prostíbulo) remete à procura incessante pela identidade, princípio de toda atitude libertária, e a insistente recorrência aos fatos de outrora apenas ilustra o quanto essa lacuna urge em ser preenchida. Freud, em um de seus escritos, menciona a existência do sentimento “oceânico”, espécie de estado de plenitude que remete ao ilimitado, infinito, e tal é a expectativa de completude levantada pelo desdobrar das ações cênicas. Será possível alcançar a plena realização humana? Talvez essa condição eminente exija abdicações na mesma proporção das aquisições, e no limiar da falta e do acúmulo esteja o ponto de recomeço que lance cada indivíduo para horizontes mais promissores. Se pôr errante, e não ficar no meio do caminho, entre lamentações e culpa – eis uma inferência interessante de considerar.
Desterro cumpre com perícia a proposta de despertar nos espectadores a mesma busca do jovem protagonista: a tentativa de se ver pela própria história e de olhar para a distância vindoura, com coragem e desprendimento das amarras da alma, postas pelas fugas e decisões mal assimiladas. Prestigiar esse espetáculo é ter a decência de se enxergar num espelho e desafiar-se a rememorar quem se é, distinguindo as resoluções inevitáveis e as gaiolas das quais se pode e não se pode fugir.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Sobre Memória, Ambiente e Estado
encontramos todo o necessário
para trocas entre sistemas,
desde energia até cultura,conhecimento,
afetividade, tolerância, etc...”
Vieira, 2006.
Uma noite tipicamente de outono, onde a pele fica mais sensível aos sopros dos ventos, aos balanços das árvores e das torres de energia que buscam a firmeza e a concretude da sanidade, tempo em que os corpos iniciam sua busca do calor que aconchega, muitas vezes, encontrado na proximidade do/com o outro. Foi mais ou menos assim que me percebi na noite do dia 10 de Abril de 2010, data em que meus sentidos subiram às pontas dos pés para tentar enxergar um tempo/espaço deslocado de mim.
A vivência produzida pelo Coletivo Cê, aqui prefiro me referir como um espaço de vivência, compartilhamento e não a um espetáculo. Não por desmerecer a obra artística, mas para explicitar algo que transcende a relação espetacular, trata-se praticamente de uma viagem no tempo, de uma máquina orgânica de atualizações de memórias, espaço de revisitação de tramas e tecidos que vão sendo reconstituídos passo a passo, onde me sinto privilegiado de me perceber contemplado.
O texto/cheiro que se organiza na boca do estômago nos leva à estados de oscilação entre quem somos, o que fomos e o que seremos, construindo relações de verticalização da percepção de corpo/memória no tempo/espaço. Nos remete à uma inércia produtiva, ambiente preciso, na medida certa de quereres de permanência no estado de embriaguês da vida.
Beber a vida não é tarefa fácil e muito menos perceptível ao longo de nossa caminhada pela maioria da população, privilegiando uma minoria que chega a se dar o luxo de perceber o sopro e as lambidas do vento na pele. Os estados corporais propostos nesse trabalho são propostos como ambiências que se alternam na tarefa de conduzir os sentidos a reorganização e estabelecimento de um novo equilíbrio, na relação dentro/fora/dentro/fora...
“...ô minino!!!...” jargão que permeia e dança na boca de todos os intérpretes nos leva a compreender que é possível a reinvenção da palavra como corpo pronunciado e expandido no espaço. Os intérpretes são referenciais de si mesmos e não de uma personagem que busca interpretar uma idéia, mas de alguém que constrói e apresenta uma ou mais possibilidades de ação/pensamento de/no mundo.
Os estados corporais, objeto de pesquisa e possível caminho de chegada ao objetivo do coletivo, se apresentam com fortes indicações de maturidade na lida da pesquisa que se dá no modo como a pele está presente na ação. Articula a diversidade individual e a individualidade da diversidade, tarefa desafiadora de construção de complexidade.
A memória se articula com a lógica de funcionamento das sinapses no cérebro, o que me faz recordar ainda a imagem de Michelangelo, proposta como provocação, no encontro de Deus com o homem, os dedos delicadamente quase chegam a se tocar, e, nesse quase toque é que os convidados da noite, embalados pelo sopro do vento são levados à conexão sináptica com a obra, como se um delicado e sutil fio de energia os mantivessem conectados, formando uma grande teia de informações e de trocas constantes.
Os sons, cheiros, imagens, toques e sabores do ambiente nos convidam à atualizações de nossos modos de agir e de se perceber no mundo, construindo outras lógicas das relações humanas. Isso demonstra a maturidade com que o grupo vem construindo um conceito particular e de certa forma universal sobre o que é ser um coletivo, algo que se dá no exercício diário, alternando e fortalecendo os pontos que devem ser energizados, respeitando e compreendendo que para ser um coletivo é necessário o ser indivíduo que é diverso e que contempla uma parte do diverso universo do todo. Que bebamos a vida!!
Votorantim, 10 de Abril de 2010.


